
Por Edson Flosi, professor de jornalismo.
A trajetória do jornalista que vivia para o PCB
Eu tinha dezoito anos e trabalhava como auxiliar de escritório em uma empresa no centro da cidade, em São Paulo, mas eu queria mesmo era ser jornalista. Gostava de ler e escrever e achava que isso era suficiente para trabalhar em um jornal. O ano era o de 1958. Eu lia bastante, principalmente História e Literatura, leituras básicas para a formação do jornalista. Tinha alguns amigos no Partido Comunista do Brasil (PCB) e havia lido alguns livros sobre o marxismo, interessando-me, cada vez mais, por essa matéria.
Mas uma noite fui sozinho, sem nenhuma recomendação, pedir emprego no jornal Notícias de Hoje, cuja Redação ficava na praça Clóvis Beviláqua, 122, também no centro da cidade. O prédio, de esquina, tinha outra entrada pela rua Silveira Martins, 37. Era um prédio antigo, estilo colonial, dois elevadores de portas pantográficas, que os ascensoristas abriam e fechavam esticando e encolhendo os braços em frenética ginástica.
Notícias de Hoje era o órgão oficial do PCB e foi lá que eu conheci Jaime Gonçalves, chefe da Reportagem, uns dez anos mais velho do que eu. Ele me explicou que não tinha o emprego que eu queria. O jornal era pobre, o empresariado não anunciava, e só sobrevivia porque colaboradores trabalhavam de graça. Poucos ali recebiam salários e, mesmo assim, baixos salários.
Era um jornal diário, vendido em bancas e também por militantes comunistas em sindicatos, portas de fábricas e centros operários. A Redação ocupava todo o terceiro andar daquele prédio antigo. A Gráfica ficava perto, na rua Conde de Sarzedas, 412. Os contínuos percorriam o caminho de ida e volta, da Redação à Gráfica, carregando material e as provas das páginas.
Repórteres chegavam da rua, pareciam cansados, escreviam reportagens, as velhas e importadas máquinas Underwood, Remington, Royal e outras. O barulho das máquinas de escrever, gente conversando, gritando ordens, discutindo o trabalho, redatores ao telefone, as luzes todas acesas.
Eu conversava com o Jaime Gonçalves e, enquanto conversávamos, eu assistia ao movimento da Redação, um mundo que me fascinava, o mundo em que eu queria viver. Então fiz uma proposta: continuaria trabalhando durante o dia, como auxiliar de escritório, ganhando o meu ordenado e, à noite, eu trabalharia no jornal de graça, como colaborador.
Cartas ao jornalJaime Gonçalves aceitou na hora e logo colocou sob a minha responsabilidade uma seção do jornal: O leitor escreve. Esta seção recebia cartas dos leitores, geralmente operários, gente humilde de pouca ou nenhuma cultura. Essa gente escrevia para o jornal oferecendo sugestões ou protestando contra as injustiças sociais, os desmandos dos maus patrões, a alta do custo de vida, os salários baixos e a corrupção nos meios políticos e administrativos.Escritas em linguagem simples, essas cartas muitas vezes continham erros gramaticais e de concordância, que precisavam ser corrigidos. Algumas eram longas demais e precisavam ser resumidas. Outras, demasiadamente provocadoras ou agressivas, não deviam ser publicadas.
O perigo maior, porém, vinha da polícia política, naquele tempo a cargo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que mandava cartas ao jornal com nomes falsos. Essas cartas, se publicadas, trariam conseqüências graves, arrastando o jornal a processos judiciais e até à sua suspensão ou fechamento.
O Dops vivia sonhando em fechar o jornal e isso aconteceu várias vezes. O jornal, entretanto, recorria à justiça e sempre voltava a funcionar. Era um jornal combativo, corajoso, revolucionário, o único que de fato defendia os interesses da classe operária e, por isso, era odiado por muitos.
Assumi a seção O leitor escreve e foi assim que eu virei jornalista. Ia todas as noites ao jornal e trabalhava pelo menos duas horas, selecionando as cartas dos leitores, que analisava, reescrevia ou resumia. Algumas cartas transformavam-se em pautas para o jornal e a partir delas eram feitas reportagens.
Câmara FerreiraA Redação era ampla e não tinha divisórias. As mesas e máquinas de escrever espalhadas por todo aquele espaço livre. Só havia uma sala fechada, com porta de madeira e parede de vidro transparente, onde ficava o diretor da Redação, um homem de estatura média, magro, sempre de terno e gravata, que usava bigode e óculos de grau. Esse homem era Joaquim Câmara Ferreira.
Jaime Gonçalves e outros jornalistas entravam e saiam o tempo todo da sala de Câmara Ferreira que, de vez em quando, deixava sua sala e atravessava a Redação, conversando com um ou outro jornalista. Era um homem polido, educado e atencioso. Sempre compenetrado no trabalho, sorria pouco, mas parecia feliz. Vivia para o PCB e o jornal.
Eu trabalhei seis meses no jornal Noticias de Hoje, depois fui embora, viver novas aventuras, em outros jornais, em empregos diferentes. Naqueles seis meses, conversei duas ou três vezes com o Câmara Ferreira, mas foram diálogos curtos, em pé, no meio da Redação. Não posso dizer que éramos amigos, mas, do Jaime Gonçalves eu me tornei amigo por muitos anos.
Entre 1959 e 1964 eu conversei com Câmara Ferreira duas ou três vezes, por ocasião de conferências que Luiz Carlos Prestes, chefe do PCB, fez em São Paulo, sempre sábado de manhã no Sindicato dos Gráficos. É claro que Luiz Carlos Prestes fez inúmeras outras conferências em São Paulo naquele período, mas eu só assisti àquelas duas ou três. Câmara Ferreira estava sempre ao lado de Luiz Carlos Prestes e eu conversei com ele, mantendo naturalmente curtos diálogos, pois não éramos íntimos e nem ele tinha tempo para me dedicar maior atenção.
Quanto a Jaime Gonçalves, perdi o contato com ele quando deixei o jornal Notícias de Hoje que, por sua vez, passado um tempo, fechou. Durante alguns anos supus erroneamente que Jaime Gonçalves estivesse na China, pois um outro jornalista, que tinha o mesmo nome, passou a escrever de Pequim como correspondente do jornal Última Hora, de São Paulo. Um dia encontrei o verdadeiro Jaime Gonçalves na rua e o equívoco foi desfeito. Fiquei sabendo, então, que ele era secretário de Redação do jornal Diário do Grande ABC, de Santo André, e daí em diante mantivemos contato e nos tornamos cada vez mais amigos.
GuerrilheiroQuando os militares deram o Golpe de Estado derrubando o governo de João Goulart, em 1964, Câmara Ferreira caiu na clandestinidade e eu nunca mais o vi. Acompanhei à distância a sua trajetória de revolucionário. Ele virou guerrilheiro e passou a ser chamado de “Toledo” ou “Velho”. Em 1970, como repórter policial do jornal Folha de S. Paulo, fui cobrir o assassinato de Câmara Ferreira, morto sob tortura pela ditadura militar, aos 57 anos de idade. Escrevi sobre a sua morte uma reportagem que, entretanto, censurada, não foi publicada.
Fazendo as contas, verifico que em 1958, quando eu trabalhei no jornal Notícias de Hoje, Câmara Ferreira tinha, então, 45 anos. Antes ou depois disso, ele foi diretor de outros jornais do PCB, como Voz Operária e Terra Livre, este último dirigido aos camponeses.
Nascido em São Paulo em 5 de setembro de 1913, mas criado em Jaboticabal, onde o pai foi prefeito, Câmara Ferreira ingressou no PCB em 1933, quando tinha 20 anos. Não concluiu o curso de engenharia porque passou a se dedicar inteiramente ao partido. Na Juventude Comunista, militou ao lado de Mário Schemberg, que depois se tornou um físico mundialmente famoso, e Noé Gertel, mais tarde competente e respeitado jornalista.
Com o golpe do Estado Novo, de Getúlio Vargas, em 1937, que implantou odiosa ditadura no país, Câmara Ferreira caiu na clandestinidade, mas em 1939 foi preso e torturado pela polícia política de Felinto Muller, figura execrável da História do Brasil. Os torturadores arrancaram unhas das mãos de Câmara Ferreira nos porões do Dops de São Paulo. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, ele foi condenado a sete anos de cadeia, sendo solto em 1945, por ocasião da anistia concedida aos presos políticos.
Eleito vereador em Jaboticabal, em 1946, exerceu o cargo durante um ano, até 1947, quando o PCB teve o registro eleitoral cassado e os seus senadores, deputados federais e estaduais e vereadores perderam o mandato. Câmara Ferreira caiu de novo na clandestinidade, o que aconteceu, também, com todos os comunistas revolucionários e militantes do partido. Em 1948 estava na União Soviética, onde estudou política, e em 1953 teve atuação destacada na greve geral de trabalhadores em São Paulo.
Tortura e morteEm 1964, um Golpe de Estado derrubou o governo de João Goulart e instalou no país uma ditadura militar que duraria vinte anos, até 1984. Em 1967, Câmara Ferreira, acompanhando um grupo de comunistas liderados por Carlos Marighella, rompeu com o PCB e dessa dissidência nasceu a Ação Libertadora Nacional (ALN), o maior agrupamento da guerrilha urbana do país, que se notabilizou pelos assaltos a bancos, carros transportadores de dinheiro e até um trem pagador, em São Paulo, expropriando fundos para a guerrilha rural, sonho que não chegou a ser concretizado.
Mas a ação mais espetacular da ALN aconteceu no Rio de Janeiro, no dia 4 de setembro de 1969, com o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que foi libertado três dias depois em troca de quinze presos políticos embarcados para o México e da divulgação pela imprensa de um manifesto revolucionário. Câmara Ferreira participou pessoalmente do seqüestro do diplomata.
Humilhada e desmoralizada, a ditadura militar intensificou a repressão e exatamente dois meses depois, na noite de 4 de novembro de 1969, policiais do Dops de São Paulo, chefiados pelo delegado Sérgio Fleury, emboscaram e executaram com cinco tiros, em uma rua do bairro do Jardim Paulista, Carlos Marighella, o principal líder da ALN.
Câmara Ferreira, que por medida de segurança havia se refugiado em Cuba após o seqüestro do embaixador norte-americano, voltou ao Brasil para assumir o comando da ALN no lugar de Carlos Marighella. Câmara Ferreira era o segundo homem na hierarquia da ALN e passou a ser o primeiro.
Na noite de 23 de outubro de 1970, Câmara Ferreira foi preso em uma rua do bairro de Indianópolis pelo delegado Sérgio Fleury e sua equipe de policiais do Dops de São Paulo, sendo levado em seguida para um sítio nas redondezas da cidade, onde morreu sob tortura. Outros revolucionários, que já estavam presos nesse sítio, testemunharam o suplício e a morte de Joaquim Câmara Ferreira. Esse sítio é citado em vários livros escritos sobre o período da ditadura militar, mas não se sabe até hoje quem é o seu proprietário nem onde se localiza, tendo-se apenas a informação de que é perto da cidade de São Paulo.
O tempo passou, a ditadura militar acabou, ficaram as lembranças da minha juventude, entre elas a de Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo” ou o “Velho”, um idealista que lutou e morreu pelo povo que tanto amou. Eu, de minha parte, fui seguindo os caminhos e os atalhos da vida, envelheci e perdi o contato com Jaime Gonçalves, que há muitos anos não vejo e não sei por onde anda.
A trajetória do jornalista que vivia para o PCB
Eu tinha dezoito anos e trabalhava como auxiliar de escritório em uma empresa no centro da cidade, em São Paulo, mas eu queria mesmo era ser jornalista. Gostava de ler e escrever e achava que isso era suficiente para trabalhar em um jornal. O ano era o de 1958. Eu lia bastante, principalmente História e Literatura, leituras básicas para a formação do jornalista. Tinha alguns amigos no Partido Comunista do Brasil (PCB) e havia lido alguns livros sobre o marxismo, interessando-me, cada vez mais, por essa matéria.
Mas uma noite fui sozinho, sem nenhuma recomendação, pedir emprego no jornal Notícias de Hoje, cuja Redação ficava na praça Clóvis Beviláqua, 122, também no centro da cidade. O prédio, de esquina, tinha outra entrada pela rua Silveira Martins, 37. Era um prédio antigo, estilo colonial, dois elevadores de portas pantográficas, que os ascensoristas abriam e fechavam esticando e encolhendo os braços em frenética ginástica.
Notícias de Hoje era o órgão oficial do PCB e foi lá que eu conheci Jaime Gonçalves, chefe da Reportagem, uns dez anos mais velho do que eu. Ele me explicou que não tinha o emprego que eu queria. O jornal era pobre, o empresariado não anunciava, e só sobrevivia porque colaboradores trabalhavam de graça. Poucos ali recebiam salários e, mesmo assim, baixos salários.
Era um jornal diário, vendido em bancas e também por militantes comunistas em sindicatos, portas de fábricas e centros operários. A Redação ocupava todo o terceiro andar daquele prédio antigo. A Gráfica ficava perto, na rua Conde de Sarzedas, 412. Os contínuos percorriam o caminho de ida e volta, da Redação à Gráfica, carregando material e as provas das páginas.
Repórteres chegavam da rua, pareciam cansados, escreviam reportagens, as velhas e importadas máquinas Underwood, Remington, Royal e outras. O barulho das máquinas de escrever, gente conversando, gritando ordens, discutindo o trabalho, redatores ao telefone, as luzes todas acesas.
Eu conversava com o Jaime Gonçalves e, enquanto conversávamos, eu assistia ao movimento da Redação, um mundo que me fascinava, o mundo em que eu queria viver. Então fiz uma proposta: continuaria trabalhando durante o dia, como auxiliar de escritório, ganhando o meu ordenado e, à noite, eu trabalharia no jornal de graça, como colaborador.
Cartas ao jornalJaime Gonçalves aceitou na hora e logo colocou sob a minha responsabilidade uma seção do jornal: O leitor escreve. Esta seção recebia cartas dos leitores, geralmente operários, gente humilde de pouca ou nenhuma cultura. Essa gente escrevia para o jornal oferecendo sugestões ou protestando contra as injustiças sociais, os desmandos dos maus patrões, a alta do custo de vida, os salários baixos e a corrupção nos meios políticos e administrativos.Escritas em linguagem simples, essas cartas muitas vezes continham erros gramaticais e de concordância, que precisavam ser corrigidos. Algumas eram longas demais e precisavam ser resumidas. Outras, demasiadamente provocadoras ou agressivas, não deviam ser publicadas.
O perigo maior, porém, vinha da polícia política, naquele tempo a cargo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que mandava cartas ao jornal com nomes falsos. Essas cartas, se publicadas, trariam conseqüências graves, arrastando o jornal a processos judiciais e até à sua suspensão ou fechamento.
O Dops vivia sonhando em fechar o jornal e isso aconteceu várias vezes. O jornal, entretanto, recorria à justiça e sempre voltava a funcionar. Era um jornal combativo, corajoso, revolucionário, o único que de fato defendia os interesses da classe operária e, por isso, era odiado por muitos.
Assumi a seção O leitor escreve e foi assim que eu virei jornalista. Ia todas as noites ao jornal e trabalhava pelo menos duas horas, selecionando as cartas dos leitores, que analisava, reescrevia ou resumia. Algumas cartas transformavam-se em pautas para o jornal e a partir delas eram feitas reportagens.
Câmara FerreiraA Redação era ampla e não tinha divisórias. As mesas e máquinas de escrever espalhadas por todo aquele espaço livre. Só havia uma sala fechada, com porta de madeira e parede de vidro transparente, onde ficava o diretor da Redação, um homem de estatura média, magro, sempre de terno e gravata, que usava bigode e óculos de grau. Esse homem era Joaquim Câmara Ferreira.
Jaime Gonçalves e outros jornalistas entravam e saiam o tempo todo da sala de Câmara Ferreira que, de vez em quando, deixava sua sala e atravessava a Redação, conversando com um ou outro jornalista. Era um homem polido, educado e atencioso. Sempre compenetrado no trabalho, sorria pouco, mas parecia feliz. Vivia para o PCB e o jornal.
Eu trabalhei seis meses no jornal Noticias de Hoje, depois fui embora, viver novas aventuras, em outros jornais, em empregos diferentes. Naqueles seis meses, conversei duas ou três vezes com o Câmara Ferreira, mas foram diálogos curtos, em pé, no meio da Redação. Não posso dizer que éramos amigos, mas, do Jaime Gonçalves eu me tornei amigo por muitos anos.
Entre 1959 e 1964 eu conversei com Câmara Ferreira duas ou três vezes, por ocasião de conferências que Luiz Carlos Prestes, chefe do PCB, fez em São Paulo, sempre sábado de manhã no Sindicato dos Gráficos. É claro que Luiz Carlos Prestes fez inúmeras outras conferências em São Paulo naquele período, mas eu só assisti àquelas duas ou três. Câmara Ferreira estava sempre ao lado de Luiz Carlos Prestes e eu conversei com ele, mantendo naturalmente curtos diálogos, pois não éramos íntimos e nem ele tinha tempo para me dedicar maior atenção.
Quanto a Jaime Gonçalves, perdi o contato com ele quando deixei o jornal Notícias de Hoje que, por sua vez, passado um tempo, fechou. Durante alguns anos supus erroneamente que Jaime Gonçalves estivesse na China, pois um outro jornalista, que tinha o mesmo nome, passou a escrever de Pequim como correspondente do jornal Última Hora, de São Paulo. Um dia encontrei o verdadeiro Jaime Gonçalves na rua e o equívoco foi desfeito. Fiquei sabendo, então, que ele era secretário de Redação do jornal Diário do Grande ABC, de Santo André, e daí em diante mantivemos contato e nos tornamos cada vez mais amigos.
GuerrilheiroQuando os militares deram o Golpe de Estado derrubando o governo de João Goulart, em 1964, Câmara Ferreira caiu na clandestinidade e eu nunca mais o vi. Acompanhei à distância a sua trajetória de revolucionário. Ele virou guerrilheiro e passou a ser chamado de “Toledo” ou “Velho”. Em 1970, como repórter policial do jornal Folha de S. Paulo, fui cobrir o assassinato de Câmara Ferreira, morto sob tortura pela ditadura militar, aos 57 anos de idade. Escrevi sobre a sua morte uma reportagem que, entretanto, censurada, não foi publicada.
Fazendo as contas, verifico que em 1958, quando eu trabalhei no jornal Notícias de Hoje, Câmara Ferreira tinha, então, 45 anos. Antes ou depois disso, ele foi diretor de outros jornais do PCB, como Voz Operária e Terra Livre, este último dirigido aos camponeses.
Nascido em São Paulo em 5 de setembro de 1913, mas criado em Jaboticabal, onde o pai foi prefeito, Câmara Ferreira ingressou no PCB em 1933, quando tinha 20 anos. Não concluiu o curso de engenharia porque passou a se dedicar inteiramente ao partido. Na Juventude Comunista, militou ao lado de Mário Schemberg, que depois se tornou um físico mundialmente famoso, e Noé Gertel, mais tarde competente e respeitado jornalista.
Com o golpe do Estado Novo, de Getúlio Vargas, em 1937, que implantou odiosa ditadura no país, Câmara Ferreira caiu na clandestinidade, mas em 1939 foi preso e torturado pela polícia política de Felinto Muller, figura execrável da História do Brasil. Os torturadores arrancaram unhas das mãos de Câmara Ferreira nos porões do Dops de São Paulo. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, ele foi condenado a sete anos de cadeia, sendo solto em 1945, por ocasião da anistia concedida aos presos políticos.
Eleito vereador em Jaboticabal, em 1946, exerceu o cargo durante um ano, até 1947, quando o PCB teve o registro eleitoral cassado e os seus senadores, deputados federais e estaduais e vereadores perderam o mandato. Câmara Ferreira caiu de novo na clandestinidade, o que aconteceu, também, com todos os comunistas revolucionários e militantes do partido. Em 1948 estava na União Soviética, onde estudou política, e em 1953 teve atuação destacada na greve geral de trabalhadores em São Paulo.
Tortura e morteEm 1964, um Golpe de Estado derrubou o governo de João Goulart e instalou no país uma ditadura militar que duraria vinte anos, até 1984. Em 1967, Câmara Ferreira, acompanhando um grupo de comunistas liderados por Carlos Marighella, rompeu com o PCB e dessa dissidência nasceu a Ação Libertadora Nacional (ALN), o maior agrupamento da guerrilha urbana do país, que se notabilizou pelos assaltos a bancos, carros transportadores de dinheiro e até um trem pagador, em São Paulo, expropriando fundos para a guerrilha rural, sonho que não chegou a ser concretizado.
Mas a ação mais espetacular da ALN aconteceu no Rio de Janeiro, no dia 4 de setembro de 1969, com o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que foi libertado três dias depois em troca de quinze presos políticos embarcados para o México e da divulgação pela imprensa de um manifesto revolucionário. Câmara Ferreira participou pessoalmente do seqüestro do diplomata.
Humilhada e desmoralizada, a ditadura militar intensificou a repressão e exatamente dois meses depois, na noite de 4 de novembro de 1969, policiais do Dops de São Paulo, chefiados pelo delegado Sérgio Fleury, emboscaram e executaram com cinco tiros, em uma rua do bairro do Jardim Paulista, Carlos Marighella, o principal líder da ALN.
Câmara Ferreira, que por medida de segurança havia se refugiado em Cuba após o seqüestro do embaixador norte-americano, voltou ao Brasil para assumir o comando da ALN no lugar de Carlos Marighella. Câmara Ferreira era o segundo homem na hierarquia da ALN e passou a ser o primeiro.
Na noite de 23 de outubro de 1970, Câmara Ferreira foi preso em uma rua do bairro de Indianópolis pelo delegado Sérgio Fleury e sua equipe de policiais do Dops de São Paulo, sendo levado em seguida para um sítio nas redondezas da cidade, onde morreu sob tortura. Outros revolucionários, que já estavam presos nesse sítio, testemunharam o suplício e a morte de Joaquim Câmara Ferreira. Esse sítio é citado em vários livros escritos sobre o período da ditadura militar, mas não se sabe até hoje quem é o seu proprietário nem onde se localiza, tendo-se apenas a informação de que é perto da cidade de São Paulo.
O tempo passou, a ditadura militar acabou, ficaram as lembranças da minha juventude, entre elas a de Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo” ou o “Velho”, um idealista que lutou e morreu pelo povo que tanto amou. Eu, de minha parte, fui seguindo os caminhos e os atalhos da vida, envelheci e perdi o contato com Jaime Gonçalves, que há muitos anos não vejo e não sei por onde anda.
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