sábado, 18 de abril de 2009

DISCURSO DE IVAN SEIXAS, NA REABERTURA DO MEMORIAL DA RESISTÊNCIA.

Este Memorial destaca o papel da Resistência na defesa dos valores democráticos. Por isso foi reformado e devolvido ao povo brasileiro. Só quem tem sensibilidade política e histórica pode dar ouvidos ao reclamo das pessoas que por aqui passaram. Esta reforma resgatou o importante documento histórico que é este prédio.
Podemos bradar bem alto que nosso esforço de reconstruir a história é vitorioso, como vitoriosas são as pessoas que lutaram por Democracia e Liberdade. Outra vez vencemos. Mais uma vez as forças da escuridão, que tentaram apagar as pistas dos crimes cometidos contra o povo brasileiro, foram derrotadas. A abertura deste monumento histórico mostra isso.
É sempre bom lembrar que desde o primeiro momento, quando as luzes se apagaram, as vozes da resistência começaram a gritar contra a ditadura mais sanguinária que o país conheceu. Alguns foram gritos de indignação, outros foram gritos organizados. Nunca foram calados. Mesmo quando alguns foram transformados em gritos de torturados, ainda assim denunciavam a ditadura e lutavam por Justiça, Liberdade e Democracia.
Há quarenta anos atrás, neste mesmo dia 24 de janeiro, a ditadura foi desmascarada por um militar. Neste dia, o Capitão Carlos Lamarca denunciou a ilegalidade do regime de terror e os crimes de seus colegas de farda e se juntou à luta das Organizações revolucionárias clandestinas. Os golpistas e torturadores nunca o perdoaram por esse ato, do mesmo modo que nunca perdoaram o ex-deputado Rubens Paiva que denunciou o IPES como um antro de golpistas, que havia criado um serviço secreto particular para perseguir as pessoas fiéis à Democracia e contrárias ao golpe. Ambos foram perseguidos e assassinados pelos carrascos da ditadura em 1971.
A atitude de resgatar este velho prédio e transformá-lo num símbolo de resistência é a manifestação de quem luta pela Democracia e não quer esconder nossa história. E nem apagar as pistas de sangue deixadas por carrascos impunes até os dias de hoje.
Não há como negar que o Memorial da Resistência é mérito das lutas insistentes do Fórum dos ex-Presos e Perseguidos Políticos e das várias entidades, que rejeitaram o estranho Memorial da Liberdade e defenderam o conceito de Memorial da Resistência. Mais lógico e mais sensato.
Por justiça, fazemos questão de salientar que o atual Governo do Estado mostrou seu compromisso democrático e a determinação de revelar esse prédio como centro de torturas e assassinatos, sem esconder a verdade e sem mascarar a realidade. Nisso o secretário João Sayad e o diretor da Pinacoteca, Marcelo Araújo, tiveram papel decisivo e fundamental. E o governador José Serra garantiu que tudo acontecesse.
Para cumprir seu papel histórico e didático, no entanto, o Memorial da Resistência deve ter um destino militante. Projetos e programações a devem sensibilizar a sociedade sobre a importância da luta pela Anistia, a Justiça de Transição e os Direitos Humanos para a Democracia. Para nós do Fórum dos ex-Presos e Perseguidos Políticos, o objetivo maior é completar a transição democrática, consolidar e aprofundar a Democracia.
Devemos usar os danos causados pela ditadura como instrumentos para fortalecer nossas instituições. Que eles ajudem o Estado Brasileiro a ter vontade política e ações na defesa do direito à Memória, Verdade, Justiça e Reparação. E que sirvam de base para a construção de uma verdadeira Democracia, que garanta os direitos fundamentais e uma vida digna ao povo de nosso país.
No ano de 2008 houve a união de entidades, personalidades e autoridades na luta comum pelos Direitos Humanos em defesa da Democracia. Fizemos nossa parte ao criar uma articulação nacional das entidades dos atingidos, em defesa da transição completa para a democracia. A CBA-Brasil, Coordenação Brasileira pela Anistia, reúne entidades dos atingidos e de defesa dos direitos humanos de todo o país, com a preocupação de participar do grande debate que se trava sobre os Direitos Humanos. Queremos também fazer frente à investida da direita mais retrógrada de nosso país, que não dorme e não se cansa de procurar as trevas como cenário para seus atos. Mais que isso, apoiamos as iniciativas em defesa do povo e da democracia.
Vemos com preocupação o presidente do Supremo Tribunal Federal se transformar no porta-voz das forças do atraso e da defesa dos torturadores dos tempos da ditadura. Por outro lado, aplaudimos a ação dos Procuradores Federais Marlon Weichert e Eugênia Fávero na luta incansável pela responsabilização dos torturadores.
Do mesmo modo, apoiamos os ministros Paulo Vannuchi e Tarso Genro que iniciaram o debate sobre a punição aos torturadores. Este último deu ainda uma demonstração de grandeza e soberania nacional ao dar asilo político a um militante de esquerda ameaçado de retaliação pelos neofascistas italianos.
O ano de 2009 é rico em simbolismos para a recuperação de nossa História. Em agosto, comemoraremos os 30 anos da Lei de Anistia, que não foi ampla, geral e irrestrita como queríamos e o país necessitava, mas foi uma importante derrota do regime de terror, que teve de ceder os anéis para não perder os dedos. Temos muito o que comemorar nessa data.
No entanto, lembraremos os 45 anos do golpe de 64 contra a democracia e os quarenta anos da criação da famigerada e infame Operação Bandeirante. Lembraremos que há quarenta anos João Cândido, o Almirante negro, morria na miséria e a ditadura assassinava Carlos Marighella. E que a repressão política executou o operário Santo Dias da Silva há 30 anos. Nunca esqueceremos disso.
Nosso compromisso de não esquecer e cobrar punição para os torturadores dos tempos da ditadura tem um motivo muito claro. A impunidade desses agentes do Estado é um incentivo a prática de torturas e assassinatos pelos agentes atuais. A tortura em órgãos policiais e instituições militares, o assassinato e a violência contra pessoas pobres, principalmente jovens, são uma triste realidade da atualidade.
A sociedade brasileira, as instituições democráticas e o Estado brasileiro, precisam sinalizar com clareza que não aceitam esses crimes de lesa-humanidade, apurando a Verdade histórica, única garantia da consolidação da Democracia e de construção de um futuro melhor.
Temos como tarefa a realização, neste ano, de nosso Congresso Nacional dos Atingidos para que os perseguidos falem por suas próprias vozes. Será um encontro para mostrar todos os crimes da ditadura, os traumas, as seqüelas sociais e denunciar as práticas autoritárias que perduram até hoje.
Acreditamos que o governo estadual e o governo federal se juntarão para dar apoio e suporte a essa nossa iniciativa, pois esse assunto está acima de disputas partidárias. A ditadura atingiu a todos nós brasileiros e democratas. A transição democrática incompleta exige o esforço de todos comprometidos com a Democracia e os Direitos Humanos. Não há partidos nessa luta. Não há argumento ou desculpa para quem se coloca contra ou sabota essa luta.
Nunca é demais lembrar que acreditamos na democracia e no futuro de nosso país. E nossa aposta é na juventude. Ela, que foi muito maltratada pela ditadura, que perdeu sua liberdade de participação, organização e manifestação, ainda é maltratada hoje. O flagelo das drogas, a violência contra crianças e jovens, a despolitização da vida brasileira, o ensino precário e alienante completam o serviço iniciado pela ditadura anti-nacional e anti-povo.
O compromisso dos atuais governos e governantes com o projeto democrático deve ser o resgate da força da juventude e o incentivo do pleno direito de organização, participação e manifestação dos jovens. Tanto o governador José Serra, que teve sua vida estudantil interrompida pelo golpe de Estado, quanto o governo federal, repleto de ex-militantes contra a ditadura, tem condições e o dever de incentivar a participação e a transformação da juventude de hoje em adultos defensores da cidadania.
O Fórum faz sua parte. Em 2008, realizamos várias palestras e visitas guiadas pelas celas e corredores deste prédio, com estudantes de todos os níveis. Em todas essas ocasiões, incentivamos a reflexão sobre os fatos e a conclusão de que é possível a construção de um mundo melhor. Queremos fazer dessa experiência um sucesso e uma referência nacional, com a participação de mais adolescentes, jovens secundaristas e universitários, da capital e do interior do estado.
Convidamos as autoridades do Estado e da União a formarmos uma frente em defesa de uma juventude lúcida, consciente e pronta para o exercício da cidadania. Precisamos que as duas esferas de governo deixem claro seu apoio e participem de nosso Projeto para os jovens no Memorial da Resistência. Para que muitas outras palestras, debates e atos em defesa da vida aconteçam neste espaço ora inaugurado.
Queremos também o apoio e suporte de todos os presentes e de todas as esferas de governo para a realização de nosso Congresso Nacional dos Atingidos pela ditadura.
Por último, queremos expressar nosso agradecimento ao pessoal que se empenhou na realização e execução das obras de reforma desse espaço, criando um centro de referência sem igual no país. Nossas amigas professoras Maria Luiza Tucci Carneiro e Cristina Bruno, a museóloga Katia Filipini, a historiadora Caroline Grassi, os muitos operários dedicados ao projeto e o diretor da Pinacoteca, Marcelo Araújo, que acompanhou todos os passos da reforma de perto e pessoalmente.
Nós, lutadores da liberdade, temos um compromisso com a História, um compromisso que não se finda. Nossa preocupação com os pobres de nossa terra, com a soberania nacional e com nossa juventude nos fez enfrentar o dissabor de voltar a este espaço, onde sofremos torturas de toda ordem, para cumprirmos nossa obrigação com o país, com a história e com o futuro. Estamos todos de parabéns. Cumprimos nossa tarefa revolucionária e nosso papel solidário.
Para que nunca mais aconteçam as ditaduras e que o futuro seja melhor para nosso sofrido povo.
PELO FIM DAS TORTURAS!
DITADURA NUNCA MAIS!
VIVA A DEMOCRACIA!

terça-feira, 14 de abril de 2009

30º ANIVERSÁRIO DO CONGRESSO DE RECONSTRUÇÃO DA UNE.


Em 29 de Maio de 2009, completam-se trinta anos do histórico Congresso da UNE em Salvador-Ba. Para matar as saudades, postamos uma foto da comissão que organizou em Bauru, Sp., a festa comemorativa dos vinte anos do Congresso. Tá na hora de fazer a festa dos trinta anos?

BAURU EM 1905

Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo.


Por Edson Flosi, professor de jornalismo.

A trajetória do jornalista que vivia para o PCB

Eu tinha dezoito anos e trabalhava como auxiliar de escritório em uma empresa no centro da cidade, em São Paulo, mas eu queria mesmo era ser jornalista. Gostava de ler e escrever e achava que isso era suficiente para trabalhar em um jornal. O ano era o de 1958. Eu lia bastante, principalmente História e Literatura, leituras básicas para a formação do jornalista. Tinha alguns amigos no Partido Comunista do Brasil (PCB) e havia lido alguns livros sobre o marxismo, interessando-me, cada vez mais, por essa matéria.
Mas uma noite fui sozinho, sem nenhuma recomendação, pedir emprego no jornal Notícias de Hoje, cuja Redação ficava na praça Clóvis Beviláqua, 122, também no centro da cidade. O prédio, de esquina, tinha outra entrada pela rua Silveira Martins, 37. Era um prédio antigo, estilo colonial, dois elevadores de portas pantográficas, que os ascensoristas abriam e fechavam esticando e encolhendo os braços em frenética ginástica.
Notícias de Hoje era o órgão oficial do PCB e foi lá que eu conheci Jaime Gonçalves, chefe da Reportagem, uns dez anos mais velho do que eu. Ele me explicou que não tinha o emprego que eu queria. O jornal era pobre, o empresariado não anunciava, e só sobrevivia porque colaboradores trabalhavam de graça. Poucos ali recebiam salários e, mesmo assim, baixos salários.
Era um jornal diário, vendido em bancas e também por militantes comunistas em sindicatos, portas de fábricas e centros operários. A Redação ocupava todo o terceiro andar daquele prédio antigo. A Gráfica ficava perto, na rua Conde de Sarzedas, 412. Os contínuos percorriam o caminho de ida e volta, da Redação à Gráfica, carregando material e as provas das páginas.
Repórteres chegavam da rua, pareciam cansados, escreviam reportagens, as velhas e importadas máquinas Underwood, Remington, Royal e outras. O barulho das máquinas de escrever, gente conversando, gritando ordens, discutindo o trabalho, redatores ao telefone, as luzes todas acesas.
Eu conversava com o Jaime Gonçalves e, enquanto conversávamos, eu assistia ao movimento da Redação, um mundo que me fascinava, o mundo em que eu queria viver. Então fiz uma proposta: continuaria trabalhando durante o dia, como auxiliar de escritório, ganhando o meu ordenado e, à noite, eu trabalharia no jornal de graça, como colaborador.
Cartas ao jornalJaime Gonçalves aceitou na hora e logo colocou sob a minha responsabilidade uma seção do jornal: O leitor escreve. Esta seção recebia cartas dos leitores, geralmente operários, gente humilde de pouca ou nenhuma cultura. Essa gente escrevia para o jornal oferecendo sugestões ou protestando contra as injustiças sociais, os desmandos dos maus patrões, a alta do custo de vida, os salários baixos e a corrupção nos meios políticos e administrativos.Escritas em linguagem simples, essas cartas muitas vezes continham erros gramaticais e de concordância, que precisavam ser corrigidos. Algumas eram longas demais e precisavam ser resumidas. Outras, demasiadamente provocadoras ou agressivas, não deviam ser publicadas.
O perigo maior, porém, vinha da polícia política, naquele tempo a cargo do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), que mandava cartas ao jornal com nomes falsos. Essas cartas, se publicadas, trariam conseqüências graves, arrastando o jornal a processos judiciais e até à sua suspensão ou fechamento.
O Dops vivia sonhando em fechar o jornal e isso aconteceu várias vezes. O jornal, entretanto, recorria à justiça e sempre voltava a funcionar. Era um jornal combativo, corajoso, revolucionário, o único que de fato defendia os interesses da classe operária e, por isso, era odiado por muitos.
Assumi a seção O leitor escreve e foi assim que eu virei jornalista. Ia todas as noites ao jornal e trabalhava pelo menos duas horas, selecionando as cartas dos leitores, que analisava, reescrevia ou resumia. Algumas cartas transformavam-se em pautas para o jornal e a partir delas eram feitas reportagens.
Câmara FerreiraA Redação era ampla e não tinha divisórias. As mesas e máquinas de escrever espalhadas por todo aquele espaço livre. Só havia uma sala fechada, com porta de madeira e parede de vidro transparente, onde ficava o diretor da Redação, um homem de estatura média, magro, sempre de terno e gravata, que usava bigode e óculos de grau. Esse homem era Joaquim Câmara Ferreira.
Jaime Gonçalves e outros jornalistas entravam e saiam o tempo todo da sala de Câmara Ferreira que, de vez em quando, deixava sua sala e atravessava a Redação, conversando com um ou outro jornalista. Era um homem polido, educado e atencioso. Sempre compenetrado no trabalho, sorria pouco, mas parecia feliz. Vivia para o PCB e o jornal.
Eu trabalhei seis meses no jornal Noticias de Hoje, depois fui embora, viver novas aventuras, em outros jornais, em empregos diferentes. Naqueles seis meses, conversei duas ou três vezes com o Câmara Ferreira, mas foram diálogos curtos, em pé, no meio da Redação. Não posso dizer que éramos amigos, mas, do Jaime Gonçalves eu me tornei amigo por muitos anos.
Entre 1959 e 1964 eu conversei com Câmara Ferreira duas ou três vezes, por ocasião de conferências que Luiz Carlos Prestes, chefe do PCB, fez em São Paulo, sempre sábado de manhã no Sindicato dos Gráficos. É claro que Luiz Carlos Prestes fez inúmeras outras conferências em São Paulo naquele período, mas eu só assisti àquelas duas ou três. Câmara Ferreira estava sempre ao lado de Luiz Carlos Prestes e eu conversei com ele, mantendo naturalmente curtos diálogos, pois não éramos íntimos e nem ele tinha tempo para me dedicar maior atenção.
Quanto a Jaime Gonçalves, perdi o contato com ele quando deixei o jornal Notícias de Hoje que, por sua vez, passado um tempo, fechou. Durante alguns anos supus erroneamente que Jaime Gonçalves estivesse na China, pois um outro jornalista, que tinha o mesmo nome, passou a escrever de Pequim como correspondente do jornal Última Hora, de São Paulo. Um dia encontrei o verdadeiro Jaime Gonçalves na rua e o equívoco foi desfeito. Fiquei sabendo, então, que ele era secretário de Redação do jornal Diário do Grande ABC, de Santo André, e daí em diante mantivemos contato e nos tornamos cada vez mais amigos.
GuerrilheiroQuando os militares deram o Golpe de Estado derrubando o governo de João Goulart, em 1964, Câmara Ferreira caiu na clandestinidade e eu nunca mais o vi. Acompanhei à distância a sua trajetória de revolucionário. Ele virou guerrilheiro e passou a ser chamado de “Toledo” ou “Velho”. Em 1970, como repórter policial do jornal Folha de S. Paulo, fui cobrir o assassinato de Câmara Ferreira, morto sob tortura pela ditadura militar, aos 57 anos de idade. Escrevi sobre a sua morte uma reportagem que, entretanto, censurada, não foi publicada.
Fazendo as contas, verifico que em 1958, quando eu trabalhei no jornal Notícias de Hoje, Câmara Ferreira tinha, então, 45 anos. Antes ou depois disso, ele foi diretor de outros jornais do PCB, como Voz Operária e Terra Livre, este último dirigido aos camponeses.
Nascido em São Paulo em 5 de setembro de 1913, mas criado em Jaboticabal, onde o pai foi prefeito, Câmara Ferreira ingressou no PCB em 1933, quando tinha 20 anos. Não concluiu o curso de engenharia porque passou a se dedicar inteiramente ao partido. Na Juventude Comunista, militou ao lado de Mário Schemberg, que depois se tornou um físico mundialmente famoso, e Noé Gertel, mais tarde competente e respeitado jornalista.
Com o golpe do Estado Novo, de Getúlio Vargas, em 1937, que implantou odiosa ditadura no país, Câmara Ferreira caiu na clandestinidade, mas em 1939 foi preso e torturado pela polícia política de Felinto Muller, figura execrável da História do Brasil. Os torturadores arrancaram unhas das mãos de Câmara Ferreira nos porões do Dops de São Paulo. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, ele foi condenado a sete anos de cadeia, sendo solto em 1945, por ocasião da anistia concedida aos presos políticos.
Eleito vereador em Jaboticabal, em 1946, exerceu o cargo durante um ano, até 1947, quando o PCB teve o registro eleitoral cassado e os seus senadores, deputados federais e estaduais e vereadores perderam o mandato. Câmara Ferreira caiu de novo na clandestinidade, o que aconteceu, também, com todos os comunistas revolucionários e militantes do partido. Em 1948 estava na União Soviética, onde estudou política, e em 1953 teve atuação destacada na greve geral de trabalhadores em São Paulo.
Tortura e morteEm 1964, um Golpe de Estado derrubou o governo de João Goulart e instalou no país uma ditadura militar que duraria vinte anos, até 1984. Em 1967, Câmara Ferreira, acompanhando um grupo de comunistas liderados por Carlos Marighella, rompeu com o PCB e dessa dissidência nasceu a Ação Libertadora Nacional (ALN), o maior agrupamento da guerrilha urbana do país, que se notabilizou pelos assaltos a bancos, carros transportadores de dinheiro e até um trem pagador, em São Paulo, expropriando fundos para a guerrilha rural, sonho que não chegou a ser concretizado.
Mas a ação mais espetacular da ALN aconteceu no Rio de Janeiro, no dia 4 de setembro de 1969, com o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, que foi libertado três dias depois em troca de quinze presos políticos embarcados para o México e da divulgação pela imprensa de um manifesto revolucionário. Câmara Ferreira participou pessoalmente do seqüestro do diplomata.
Humilhada e desmoralizada, a ditadura militar intensificou a repressão e exatamente dois meses depois, na noite de 4 de novembro de 1969, policiais do Dops de São Paulo, chefiados pelo delegado Sérgio Fleury, emboscaram e executaram com cinco tiros, em uma rua do bairro do Jardim Paulista, Carlos Marighella, o principal líder da ALN.
Câmara Ferreira, que por medida de segurança havia se refugiado em Cuba após o seqüestro do embaixador norte-americano, voltou ao Brasil para assumir o comando da ALN no lugar de Carlos Marighella. Câmara Ferreira era o segundo homem na hierarquia da ALN e passou a ser o primeiro.
Na noite de 23 de outubro de 1970, Câmara Ferreira foi preso em uma rua do bairro de Indianópolis pelo delegado Sérgio Fleury e sua equipe de policiais do Dops de São Paulo, sendo levado em seguida para um sítio nas redondezas da cidade, onde morreu sob tortura. Outros revolucionários, que já estavam presos nesse sítio, testemunharam o suplício e a morte de Joaquim Câmara Ferreira. Esse sítio é citado em vários livros escritos sobre o período da ditadura militar, mas não se sabe até hoje quem é o seu proprietário nem onde se localiza, tendo-se apenas a informação de que é perto da cidade de São Paulo.
O tempo passou, a ditadura militar acabou, ficaram as lembranças da minha juventude, entre elas a de Joaquim Câmara Ferreira, o “Toledo” ou o “Velho”, um idealista que lutou e morreu pelo povo que tanto amou. Eu, de minha parte, fui seguindo os caminhos e os atalhos da vida, envelheci e perdi o contato com Jaime Gonçalves, que há muitos anos não vejo e não sei por onde anda.

21 anos sem Gasparini.

Em 1983 ocorria a morte precoce do combativo Edison Bastos Gasparini, que tombava aos 49 anos de idade, no exercício do cargo de prefeito de Bauru. Botucatuense de nascimento e bauruense por adoção construíra uma invejável carreira política, calcada na coerência e na defesa intransigente dos oprimidos de nossa cidade, durante os vinte e dois anos que exerceu o mandato de vereador. Defesa do consumidor e do povo da periferia foram suas bandeiras que tremularam com constância em seus mandatos, ocasionando com isso o rancor e porque não dizer o ódio dos detentores do poder político e econômico, que não mediram esforços para tentar encerrar prematuramente sua carreira política quando da eclosão do Golpe Militar de 1º de Abril de 1964. Cassaram arbitrariamente seu mandato, buscaram incansavelmente seu refúgio para coloca-lo na cadeia, invadiram fortemente armados sua residência, ocasionando perdas irreparáveis para sua família e a pior delas, indiscutivelmente, a perda de um filho, ante a interrupção da gravidez de dona Darcy. Retomou seu mandato na justiça e continuou em sua árdua defesa do proletariado. Ao contrário de muitos jamais fez política por necessidade econômica e sim, por ideal e convicção ideológica.
Em 1982, obteve nas urnas o reconhecimento popular, sendo eleito Prefeito Municipal de Bauru, com o decisivo apoio dos oprimidos a quem sempre defendeu e por uma fatalidade do destino, ante ao surgimento de insidiosa doença que o levou a morte, não conseguiu colocar em prática os projetos que tinha em mente para implantar em benefício da população carente de nossa cidade.
Até nestas horas sua sapiência se fazia presente e havia escolhido como seu companheiro de chapa, o então jovem professor Tuga Angerami, que ao assumir a Prefeitura colocou em prática os projetos de seu verdadeiro e único padrinho político, muito embora alguns oportunistas históricos teimem em dizer que não.
Decorridos 21 anos de sua morte, o seu discípulo político retorna a Prefeitura Municipal com o forte desejo de implantar os melhoramentos básicos que a periferia de nossa cidade clama. E de nada adiantaram os falsos profetas ameaçarem com o inferno os eleitores que neles não votassem. O povo da nossa periferia mostrou que não quer uma Bauru muda, sem voz e resolveu apostar suas fichas naquele que reconhecidamente foi o prefeito da periferia bauruense.
De minha parte fico contente e satisfeito com a imparcialidade divina que demonstrou de forma inequívoca que ateu também é filho de Deus, mesmo que com isso não concordem alguns que usam, talvez indevidamente, seu nome.

Antonio Pedroso Júnior
chineloneles@hotmail.com

P.S. Quando escrevemos o texto acima, o Tuga Angerami era o depositário da confiança do povo de Bauru, tendo sido eleito prefeito com votação esmagadora. Acabou por realizar uma administração pífia, sem concretizar nenhum avanço, principalmente na área social. Terminou a administração com altíssimo índice de rejeição e hoje, encontra-se no ostracismo político, de onde nunca deveria ter saído.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

VITÓRIA DEPOIS DE 27 ANOS!

No final dos anos 70, a sociedade civil organizada, tendo a frente a OAB, a ABI, as pastorais da Igreja Católica iniciaram a mobilização popular em busca da redemocratização de nossa pátria. Acirrando as contradições contra o regime militar eram criados o Movimento dos Sem Teto, o Movimento contra a Carestia, o Movimento Feminino pela Anistia e o Comitê Brasileiro pela Anistia. Os estudantes voltavam a participar da vida política e buscavam recriar suas entidades representativas, como a UEE e a UNE. Em Bauru, não foi diferente. Gasparini, Mariano dos Metalúrgicos, Domingos de Araújo da Alimentação instalaram o Movimento contra a Carestia. Os estudantes da FEB, começaram a se organizar e começaram a disputar as entidades estudantis daquela instituição de ensino. Surgiam novas lideranças: Ivonyr Rodrigues Ayres, o Ivo; Fábio Negrão, Marcelo Borges, João Queiróz, Dalva Aleixo, Edson Yoshino, Cícero, Almir Ribeiro e tantos outros. Yoshino, filho de trabalhador e trabalhador, era funcionário da Secretaria Estadual da Educação e almejando melhores salários com conseqüente melhoria de condições de vida, adentrou a Rede Ferroviária Federal, exercendo as funções de Técnico de Segurança do Trabalho. Paralelamente, continuava estudando, sendo dirigente do movimento estudantil e participando ativamente da luta pela redemocratização de nossa pátria.
Simpatizante da linha política, então proposta pelo jornal “Hora do Povo”, ajudava a comercializar o periódico na feira livre de nossa cidade ou na rua Batista de Carvalho. Como dirigente estudantil participou do Congresso de Reconstrução da UNE em Salvador-Ba e da instalação do Comitê Brasileiro pela Anistia.
Eram atividades de massa, legais, não havendo necessidade de se recorrer a clandestinidade para realizá-las, afinal, os próprios militares davam sinais de que a redemocratização era necessária. Assim não pensavam, os defensores da ditadura, incrustados nas Estatais.
E Yoshino foi covardemente denunciado.
Participava de atividades dos comunistas, apareceu até em fotografias no Diário de Bauru como fundador do CBA. Não tinha “índole moral” para ser funcionário da RFFSA. Procedimento sumário determinaram a sua imediata demissão dos quadros da ferrovia. Não se preocuparam, que estavam jogando para o grande contingente de desempregados um funcionário exemplar e pai de família.
Com a peculiar garra oriental, o camarada não abaixou a cabeça e continuou lutando em busca da sobrevivência e de um mundo melhor. Acabou realizando Concurso para a Secretaria Estadual da Saúde, onde permaneceu por um bom período e posteriormente para a Secretaria de Segurança Pública do Estado. O perseguido político virou escrivão de polícia, atividade que como as outras, exerce com galhardia e dignidade, tanto que foi escolhido como “Policial Civil do Ano” pela Câmara Municipal de nossa Bauru.
Hoje, decorridos 27 anos de sua demissão, injusta e arbitrária, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a reintegração aos quadros da ferrovia ao amigo e irmão, o sempre camarada Yoshino. Anistiado está o companheiro. Reparada está a injustiça cometida! Para encerrar, vou relembrar um ditado que meu saudoso pai utilizava, de forma costumeira:

“Herói não é aquele que vence uma batalha, e sim, aquele que atirado ao pó da derrota, consegue ter ânimos para continuar lutando”.

Yoshino não se abateu com a derrota que lhe foi imposta pelos costumazes adversários da democracia e da liberdade, continuou lutando e hoje pode saborear a vitória final.
Parabéns, camarada Edson Yoshino, espôsa Marlene e seus filhos. Tua vitória, vem comprovar que a luta justa pode ocasionar decepções, desemprego e entretanto, permite-nos viver com dignidade a espera da Justiça. E esta foi feita.
Vamos tomar um suco de cevada espumante em homenagem aos seu algozes!

Antonio Pedroso Júnior
chineloneles@hotmail.com

Dr. Assis Moreira Silva

Era menino e acompanhava meus pais em suas atividades sindicais/políticas por nossa Bauru. Lembro-me da campanha municipal de 1963, vencida pelo Dr. Nuno de Assis, ocasião em que o Partido Socialista Brasileiro tinha como candidato a prefeito o ferroviário Ivaldo Crivelli e à vice o saudoso Edison Bastos Gasparini, sendo que nos comícios da dobradinha socialista sempre estava presente o então jovem candidato a vereador Assis Moreira Silva. Posteriormente, lembro-me do Assis nos primeiros dias do pós-golpe militar de 1º de Abril de 1964, quando esteve preso juntamente com outros estudantes e sindicalistas bauruenses, prisão esta motivada pela deduragem e perseguição da nefasta e de triste memória Frente Anti-Comunista. Depois de alguns dias, Assis foi libertado. Entretanto, suportou por durante muito tempo as perseguições advindas em virtude desta prisão. De nada adiantava realizar concursos públicos, pois sua ficha no extinto DOPS não o deixava ser aprovado. Assis, entretanto não esmorecia e sempre que possível estava presente nas lutas do povo brasileiro. Participou do antigo MDB, da luta pela Anistia Política em 1979 e foi candidato a vice-prefeito nas eleições municipais de 1982 pelo PMDB, colaborando para que Gasparini fosse eleito Prefeito de Bauru. Não custa recordar que à época existia o instituto da sublegenda e ganhava a eleição o partido que obtivesse o maior número de votos. Gasparini/Arlindo/Cardoso Neto do PMDB tiveram maior número de votos que Wanderley Francisco/Inocêncio Medina/Nilson Costa, então candidatos do PDS (ex-ARENA). Portanto, sempre que possível Assis colocou-se na luta em busca de melhores condições de vida para o povo brasileiro. Hoje, três de Janeiro, somos surpreendidos com a notícia de seu falecimento precoce. Logo no dia em que fazia aniversário, o Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes. Assis que não comemorou seu aniversário natalício em 04.11.1969, quando completava 31 anos de idade em decorrência do assassinato de Carlos Marighela, vem a falecer no dia do nascimento de um dos políticos coerentes que esta pátria teve. Entretanto, esta carta tem a justificativa de um pedido de desculpas pós-morten. Estando em contato com o companheiro nos últimos tempos, colaborando para que o mesmo tivesse seus direitos de perseguido político reconhecido pelo governo, recebi deste um pedido honroso : Queria se filiar no PSB. Não para disputar eleições e sim para morrer no partido onde iniciou sua militância política. Havia marcado com o companheiro a oficialização desta filiação, assim que o mesmo se recuperasse da cirurgia realizada ontem. Não deu tempo, o destino o levou antes. Com toda a certeza sua ficha está sendo abonada por companheiros que o esperam para um bom papo e umas rodadas de seresta.
Até um dia companheiro.

Antonio Pedroso Júnior
chineloneles@hotmail.com